O que é o Pé Boto?

24-04-2017 23:41

Pé Boto

 

O pé boto é uma malformação congénita do pé que necessita um tratamento ortopédico adequado ao longo dos primeiros anos de vida. Trata-se de uma deformidade congénita tridimensional, que afecta 1 a 8 recém-nascidos em cada 1000. As suas causas não estão definidas, admitindo-se porém que poderá existir uma influência genética importante. É mais frequente nos rapazes e em 50% dos casos é bilateral.

 

O pé boto designa inúmeras anomalias do pé, normalmente provocadas por várias deformações. O tipo mais habitual é o pé boto equino, em que o pé está virado para baixo, como se fosse um prolongamento da estrutura da perna (pé equino), e apresenta a parte da frente desviada para o interior (pé varo) e, com alguma frequência, uma exagerada curvatura plantar.

 

Embora a origem do defeito ainda não seja exactamente conhecida, considera-se que é provocada, na maioria dos casos, por uma alteração genética que determina uma paragem no crescimento do pé durante o desenvolvimento embrionário, o que explica a sua elevada incidência em determinadas famílias. Noutros casos, pode ser originado por uma má posição fetal no interior do útero ou por várias alterações musculares ou neurológicas.

 

Independentemente do tipo de pé boto, a sua principal consequência, caso o defeito não seja corrigido, consiste no facto de o bebé não conseguir apoiar adequadamente o pé no chão, nem caminhar com normalidade, o que perturba o seu desenvolvimento psicomotor.

 

O tratamento depende do momento em que é iniciado, já que o defeito pode ser fácil e eficazmente corrigido, caso se actue logo após a detecção do problema. Caso o tratamento seja iniciado nos primeiros meses de vida, não é necessário proceder à cirurgia, pois a actuação ortopédica é suficiente para curar o problema.

 

A correcção do pé passa pela realização de manipulações ligeiras e progressivas, com o objectivo de o manter na posição correcta, após a sua colocação nesta posição, através de talas adequadas durante um determinado período de tempo.

 

A duração do tratamento varia de caso para caso, consoante as características do defeito, já que em alguns casos se consegue a total correcção num prazo de um ano, enquanto que por vezes pode ser necessário utilizar talas durante a noite até aos 3 a 5 anos de idade. Em caso de atraso no início do tratamento, nas formas mais graves, ou quando a malformação não puder ser corrigida apenas através do tratamento ortopédico, a única solução é o recurso à cirurgia.

 

Tratamento

 

Método de Ponseti

O método Ponseti está difundido mundialmente. Consiste em manipulações e imobilizações em série através de gesso e tenotomia do tendão de Aquiles, para obter a correção das deformidades do pé boto. Após a tenotomia, é usada uma ortótese para manter a correção obtida e evitar sua recidiva.

 

Protocolo de utilização da ortótese

A ortótese é colocada imediatamente após ser retirado o último gesso, 3 semanas após a tenotomia, esta consiste em botas de cano alto abertas na frente, conectadas a uma barra.

Em casos unilaterais, a ortótese é colocada em 65 a 75 graus de rotação externa do lado tratado, e 30 graus de rotação do lado normal. Em casos bilaterais, é colocado a 70 graus de rotação externa de cada lado. A barra deve ter comprimento suficiente para que a distância entre os calcanhares seja a mesma distância entre os ombros.

A barra deve ter uma curvatura de 5 a 10 graus com a convexidade para baixo, para que os pés fiquem em dorsiflexão.

A ortótese deve ser utilizada durante 23 horas (dia e noite) pelos primeiros 3 meses após ser retirado o último gesso. Depois disso, a criança deverá utilizar a ortótese por 12 horas à noite e mais 2 a 4 horas por dia, totalizando 14 a 16 horas a cada período de 24 horas. Esta rotina continua até que a criança atinja os 3 a 4 anos de idade.

 

Importância do uso da ortótese

As manipulações pela técnica de Ponseti combinadas com a tenotomia percutânea frequentemente dão resultados excelentes. No entanto, com a utilização inadequada da ortótese, a recidiva da deformidade ocorre em mais de 80% dos casos. Esse número contrasta com apenas 6% de recidivas em famílias que utilizam a ortótese adequadamente.

 

Instruções para o uso da ortótese

A ortótese é utilizada apenas após a correção total do pé boto através das manipulações e da colocação dos gessos. Mesmo quando bem corrigido, o pé boto tem a tendência de recidivar até a idade de aproximadamente 4 anos. A ortótese de abdução dos pés, que é a única forma adequada para evitar a recidiva da deformidade, quando utilizada conforme descrito acima, é efetiva em 90% dos pacientes. O uso da ortótese não vai atrasar o desenvolvimento para sentar, gatinhar ou andar.

 

Tipos de Ortóteses

Existem várias ortóteses que são efetivas para manter a correção e evitar recidivas.

 

Ortótese Markell – Estados Unidos

Essa ortótese é a mais comum, e é também conhecida como ortótese de Denis-Browne. Consiste numa barra que pode ser fixa ou expansível. As botas são conectadas à barra com um mecanismo que permite sua rotação fácil. Um dos problemas desta ortótese é o facto de ser muito pesada.

 

Pé Boto, Ortótese Markell – Estados Unidos

 

Ortótese de John Mitchel – Estados Unidos

John Mitchel desenhou esta ortótese sob a orientação do Dr Ponseti. Esta consiste em sapatos muito macios e uma palmilha plástica que é moldada ao pé da criança.

Este facto torna-a muito confortável e fácil de usar. O calcanhar é alto e flexível, e há duas aberturas para verificar se o pé está bem posicionado.

 

Ortótese de John Mitchel – Estados Unidos

 

Ortótese brasileira

A ortótese brasileira consiste em botas abertas com angulações fixas, e barra regulável. Tem um contraforte de plastozote sobre o calcâneo, e aberturas posteriores para a observação do mesmo.

 

Ortótese brasileira

 

Ortótese de Gotemburgo – Suécia

Dr. Romanus desenvolveu esta ortótese na Suécia. Os sapatos são feitos de plástico moldado com a forma do pé da criança. O interior é revestido por couro muito macio, que torna a ortótese muito confortável. Os sapatos são fixados à barra por parafusos. O principal problema é que uma nova ortótese tem que ser confeccionada a cada visita, e não pode ser utilizada noutra criança.

 

Ortótese de Lyon – França

Esta ortótese é feita com sapatos que são presos à barra por um mecanismo plástico que permite rotação. O sapato é feito em duas partes e permite a abdução do antepé em relação ao retropé.

 

Ortótese de abdução de Steenbeek

Esta ortótese mantém a correção em crianças com pé boto tratado. A ortótese constitui parte integral do tratamento pelo método de Ponseti. Esta ortótese tem sapatos de couro abertos amarrados com cadarços. Uma barra de metal redondo prende os sapatos em 70 graus de abdução e 10 a 15 graus de dorsiflexão. A posição dos dois sapatos pode ser alterada para maior ou menor abdução e dorsiflexão através da angulação da barra redonda próxima ao sapato. O sapato tem um furo de inspeção do lado medial da parte posterior bem moldada no calcâneo para confirmar se o calcâneo está colocado adequadamente no sapato. A parte posterior tem um corte posterior baixo (ao contrário das botas de cano alto) que impede o calcâneo de escorregar para fora da ortótese.

 

Ortótese de abdução de Steenbeek - Pé Boto

 

 

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